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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Carta para Felipa

  Eu precisava tomar um banho para começar a incrível jornada de reencontrar uma velha amiga, Felipa.
  Felipa, linda dos olhos castanhos quase rosados. Como eu poderia esquecer das tardes de chuva com sol e daquele colar que ela sempre usava que tinha pequenas estrelinhas coloridas, quase uma constelação que brilhava em seu pequeno e formoso pescoço.
  Para falar a verdade, eu não a vejo desde que mudei de Minas Gerais para São Paulo e eu sinto muito a falta dela. Éramos amigos desde a infância e tudo modificou quando fizemos quinze anos, eu faço aniversário em um dia e ela no outro.
  Hoje tenho 30 anos e ao longo desse grandioso caminho sempre precisei de amigos verdadeiros, o que é difícil em uma cidade grande, em que tudo corre,as palavras viram abreviações e siglas.
  Nós perdemos contato, talvez ela tenha perdido meu número. Eu espero encontra-la feliz, assim como eu particularmente estou.
  Saio de minha casa e vou em direção ao aeroporto. Com muita pressa, consigo voar junto de meus pensamentos que desde o primeiro momento não estavam mais por aqui.
  Sinto o cheiro de Minas Gerais como se fosse quinze anos atrás e gosto de tudo que vejo. Nada mudou, nem o ar que eu conheço muito bem. As imagens da juventude passam pela minha indescritível memória.
  Chego em Ouro Preto sem explicações sobre onde Felipa esteja morando. Na nossa despedida, ela somente me disse que iria esperar por mim e que a nossa amizade não iria acabar. Com base nisso, decido ir em direção a rua que nós morávamos e paro em frente a antiga ou atual casa que ela talvez ainda residenta e bato três leves palmas.
  A casa que era branca,hoje está verde bem clarinho, a cor de dentro de um limão.
  Passados dois minutos que eu bati as palmas, veio uma mulher numa cadeira de rodas, cabelos castanhos, pele levemente avermelhada e na boca, três palavras:''Quem é você?''
  A mulher vem chegando mais perto do portão e decide abrir. Ao sair para fora em direção a calçada, ela olha para dentro dos meus olhos e esse olhar é reconhecido por mim até debaixo d'agua. Era a Felipa.
  Eu levo um susto ao vê-la tão frágil em uma cadeira de rodas e ela chora ao me ver. Nos abraçamos e o motivo dela estar nesse estado foi um terrível acidente em que infelizmente seu pai veio a falecer. Eu o conhecia um pouco, pois ele não morava com a mãe dela.
  Felipa nunca teve um namorado e continua com a mesma constelação brilhante em seu pescoço. Ela decide tomar um café comigo em sua cozinha, perfumada por pequenos bolinhos que ela faz para vender e garantir sua renda.
  Eu não poderia ficar muito tempo junto dela, pois tinha que voltar para São Paulo por conta do meu trabalho.
  Ao me despedir de Felipa mais uma vez, ela sabia que eu não iria me ver mais tão brevemente. Ela pede para eu fechar os olhos e abrir minhas mãos. Ao fazer isso,sinto uma pequena cordinha com pequenos penduricalhos. Abro meus olhos e vejo que era o colar que ela usava desde criança. Ela deu de presente para mim.
  Fico minutos emocionado e ela resolve me dar também uma cesta com deliciosos bolinhos.
  Antes de partir, eu pergunto para Felipa,se ela lembrava da carta que eu enterrei no fundo do quintal dela. Ela me disse que sim e que jamais tocou na terra novamente.
  Ao cruzar a porta de saída,falo para Felipa ler o que estava escrito na carta quando eu saísse. Ela diz que iria ler imediatamente.
  Durante a minha caminhada, lembro da carta e sabia que naquele momento,Felipa estaria lendo tudo aquilo que escrevi quinze anos atrás que parecia ter escrito hoje.
  De repente lembro que deixei minhas passagens na casa dela e teria que voltar. Depois desse momento,passei a acreditar no tal destino. Meu coração estava apertado e minha mente diz: Volta!
  Ando em passos rápidos para cumprir tudo aquilo que estava na carta:''Se eu voltar, nunca mais irei ficar distante de você.''

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