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domingo, 6 de dezembro de 2015

Descendentes da tal normalidade

Nessas cabeças que fingem raciocinar,
Tantas virtudes, tantas opiniões alienadas... Ai de quem ouse tirá-las de ti.
Perfeccionismo é para tantos ou talvez todos.
Ah, se você soubesse que amanhã você não levará seu casaco mais caro,
Sua falsa paz interior, seu salário de todos os meses de sua extensa vida,
Suas garotas, seus limites e seus diagnósticos,
Seu intrometimento.
Seus ganhos e sua grande inteligência;
Você não é a melhor pessoa de todas, você só é bom para você mesmo.
Ríspido demais, rápido demais,
E eu tento te avisar...
Ah, meu caro senhor, se você soubesse que somos como estrelas perdidas,
Poeiras arrastadas pelo vento, que está cada vez mais forte.
Poeiras que descolarão do mundo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Uma praça que era cinza

  Eu só queria ouvir algum barulho. Pessoas falando tanto por aqui, falando sobre coisas de pessoas normais, como casa, trabalho e filhos. E eu era a pessoa diferente daquela multidão, o homem que não tinha nada para falar, o homem que parecia não ter identidade, o homem que não parecia ter uma história.
  Era o primeiro dia desta semana que eu quis sair de casa. Não gostava de sair de casa, porque o ato de sair de casa, me deixava vulnerável. Abandonara meu café da tarde, um momento tão importante e particular, para caminhar pelas ruas, como se fosse uma criatura normal, alienada, indo para algum lugar gastar todo dinheiro e sair feliz como um bom consumista humano, vivendo para consumir e consumir ainda mais. Parei em um banco de uma praça, e ali, me mantive calado até um certo período, até que uma garotinha de cabelos escuros e com óculos de fundo de garrafa, aparentando ter uns três anos de idade, veio até a mim e meu deu uma flor, para ser mais preciso, uma margarida. Eu a agradeci e ela saiu correndo. Eu fiquei olhando e analisando a flor, tocava em suas pétalas, olhava para pequena menina correndo, seus pulos eram rápidos, altos e intensos. Parecia uma atleta olímpica, se tivesse alguma categoria para três anos de idade. Se ela começasse a voar ali, não iria ser nenhuma novidade.
  É, talvez a humanidade ainda seja um pouco boa.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Eu, meu vizinho e nossas janelas

  Os meus olhos ficam turvos,
mas isso é tão fascinante. Não paro de olhar a minha janela. Deito sobre minha cama e lá conto tantas histórias e números, até meus olhos ficarem turvos novamente. Essa luz de fim de tarde misturada com uma leve brisa que fazem meus cabelos voarem agitadamente por um momento e que clareia de leve meu quarto que contém alguns pontos escuros, pois já não é tão dia quanto é pela manhã, é uma conexão não tecnológica que faço com o meu vizinho. Abrimos janelas juntos, fechamos janelas juntos, olhamos um pouco nosso quintal, que outrora poderia ser o mundo inteiro, deixamos as brisas baterem no nosso rosto e saímos dali, muitas vezes com uma certa pressa, mesmo não tendo nada pra fazer, mas tentando procurar algo para ter o que fazer. Talvez esse, seja nosso tipo de diálogo diário, não verbal, nosso jeito mais particular de contar um para o outro que estamos vivendo e sentindo os efeitos daquela mesma luz.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Anteontem, atrás da minha porta

  As lágrimas salgadas sentidas nessa ocasião seriam de uma imensa alegria. Salgadas, porque eu tinha provado e elas eram realmente salgadas, porém, posso estar enganado, talvez eram doces. Nunca fui bom em sentir paladar. Sempre fui rebelde e cruel, mas as lágrimas não deixavam de rolar sobre meu rosto, como acontece nas pessoas aparentemente normais. Na minha cabeça, todos me odiavam, até mesmo eu me odiava. A liberdade era uma coisa tão fácil de se conseguir, dizem alguns amigos meus, esses daí da rotina. Eles saíam de casa e voavam sem sair do chão... Eu? Eu não sei o que é isso. Já tentei, tentei, mas não tive sorte em consegui-la. Tão fácil, tão difícil e calada.
  A rebeldia não tinhas forças para bater de frente, com a cara lavada de manhã com a liberdade. Ela sempre se maquiava, passava o máximo de maquiagem possível, se enchia de roupas escuras, se iludia. Aos poucos fui me desfigurando, sem pressa, aguardando a rebeldia ir morrendo aos poucos, e a ousadia se manifestar em mim.
  Nove dias depois, brevemente conheci a liberdade, a libertadora. Batemos papo, viramos amigos, contamos sobre nossas vidas, jantamos, casamos e não vimos nada do que já tínhamos visto antes.

sábado, 5 de setembro de 2015

Nada, como sempre

  Talvez você saiba que um raio de realismo em nossas cabeças seria uma coisa boa. Seria bom mesmo se nós tivéssemos uma ligação direta e indiscreta dos nossos sonhos com a realidade. Viver sonhando pode ser como cair num abismo, nos batendo e gritando e nunca chegando ao fim, porque nunca terá um fim.
  Conheci pessoas que contei como pessoas que levaria para sempre, e o sempre durou até quando o tal sempre realmente chegou ao fim. Foi tão efêmero e insólito. Não sabia e nem contava que os sempres tinham fim. Sempre é sempre, sem fim, ora bolas. Sempre tem fim sim. Eventualmente, o sempre acaba. Como em uma tarde chuvosa com raios de sol, ou qualquer outro dia. Que luto eterno depois dessa descoberta.
  Conhecerei pessoas que falarei que irei levá-las para sempre. Essa seria minha vontade. Minha. Elas correm do sempre, eu acho.
  Sempre é forte, é assustador para alguns. É como uma intransigência, não sei dizer.
  As pessoas são tão legais, tão soltas, parecendo disponíveis, andando com suas perninhas para lá e para cá, pelas noites e dias inteiros. Elas poderiam ser legais, pode até ser que elas sejam, porém,  talvez não. Não sei ao certo, não sei se tem alguma coisa certa.
  O que eu quero para amanhã é tudo, e o que o amanhã pode fazer por mim talvez seja nada. E eu continuo assim, carregando a vida sempre nas costas sem perceber.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Feliz inutilidade

As aves nas tardes,
Aquelas sinfonias das casas,
As meninas risonhas com batom,
Seus vestidos de cetim colorido,
E um assovio para o ar.
Um pequeno redemoinho de vento,
Todo calor e todo frio,
Lágrimas secando.
O céu que estava cinza ficando azul,
O seu choro se misturando ao sorriso,
A sua alegria ganhando do ódio.
O seu bonito recado para mim,
E eu irei correndo lhe rever,
Como um bicho solto nos ares,
Mesmo com tanto concreto áspero,
Com tanta falta de amor e de amar,
Eu acho amor.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Janela sem vidro

  Comecei uma nova vida  demasiadamente grande e ao mesmo tempo curta, diária, mensal e anual. As perguntas que eu fiz, que não obtive respostas, ficaram em algum lugar perdido e longe desse instante, onde eu permanecia sentada numa cadeira de mármore, todos os dias, sem vida, fingindo apreciar as mesmas folhas caídas, as mesmas árvores com folhas amareladas pelo sol que ardia na pele das pessoas que caminhavam pelas ruas, sorridentes em direção a algum local, todos os dias, os dias inteiros.
  Sem vida, com os mesmos interesses de sempre, comecei a me desesperar alguns dias antes de estar aqui, no meio do caminho. Eu sabia que não iria viver para sempre, mas não sabia que esse para sempre fora ser transformado em um prazo tão curto, que fosse a qualquer hora dessas aí que correm pelo relógio sem parar. O desespero que entrou em mim, que foi acordado em uma caminhada pelo mesmo sol que queimava aquelas pessoas felizes e infelizes que passavam nas ruas, todos os dias da semana, que não faziam com que elas sejam importantes para outros indivíduos, mas que faziam com que elas se sentissem importantes com elas mesmas.
  Pela primeira vez eu consegui entender esse local que todas elas persistem em alcançar a todo momento, enquanto as folhas das árvores ficavam amarelas. E assim foi passando toda uma vida que era minha.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Dezembro de 1985

  Andávamos com nossos própios pés em um lugar qualquer. Por uma rua cheia de cores, meus olhos vêem folhas de diversas formas e tamanhos, misturadas com pétalas de flores, todas da mesma família.
  A noite vinha em passos lentos, cuidadosa. Tudo parecia monótono, normal, uma noite de verão, aquela brisa refrescante que parecia uma confirmação de que realmente existia um mar por perto. Você sorria, sorria tanto. Dentro de ti, a infância parecia estar junto da maturidade que você demonstra ao sair por aí como um bicho solto pelo mundo, andando pela horizontal, vendo que as pessoas são somente pessoas e que o mundo é somente um mundo.
  Sempre testando a paciência de tudo, inclusive a minha. Não possuo inimigos, talvez eu mesmo seja meu própio inimigo, meu lado fantasmagórico, quando insisto em idealizar pensamentos inúteis, em que não exista fatos para serem concluídos. O tempo me assusta, me desespera, me descabela. Me deixa vulnerável, para praticar atos indesejáveis.
  Você me dava coragem, porém as vezes nem tanto. Eu lhe dava coragem, e você agredecido, me dizia que sempre tinha uma de reserva, no armário. Eu passei a compreender que você tentara desde sempre, fazer com que eu compre um armário para guardar minhas coragens e usá-las quando chegar a hora em que precisássemos.
  No dia dois de dezembro, comprei o tal armário. Depois, fiquei desaparecido do universalismo, virei um bicho solto consciente. Juntei coragens, gritei bravamente, e assim continuei escolhendo destinos, apagando destinos, trocando destinos... Vivendo destinos.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Anonimatos

Os meus ideais,
Voam como os animais de asas
Passam por pessoas cheias e vazias
Por coisas irrelevantes
Por árvores de folhas verdes
Pelas ruas de São Paulo.
Pelas meninas nas janelas que olham o tempo,
Pelo concreto,
Pelas roupas nos varais,
Pelos quintais.
Sinto em informar que estou perdido
Não em estradas, nem em cavernas,
Nem no meio de tantas criaturas juntas
Estou perdido em minha sanidade, Complexa insanidade.
Assuntos internos
Minha mente.
O lugar mais distante de todo lugar.

sábado, 20 de junho de 2015

Entre 15 e 90

  Já eram três e meia quando o propietário da casa chega em movimentos rápidos em direção a geladeira. Ele olha, olha mais uma vez para cima, torna a olhar para baixo e mesmo com todos os produtos que um ser humano qualquer ficaria safisfeito em saciar, o homem não encontrara nada naquele momento. Rapidamente, ele fecha a porta da geladeira e vai caminhando para a copa da casa. Lá continha uma mesa de madeira deixada por seus ancestrais há anos, e que passava de geração a geração. Em cima dessa mesa havia um papel branco com alguns rabiscos de caneta preta e uma frase: "Me busque às 4. Beijos, Lúcia".
  Sem olhar o relógio, pois tinha plena convicção do horário dos seus atos, ele corre sem olhar para trás.
  Lúcia, 30 anos, advogada renomada e viajante profissional, tinha mais uma vez ido ao exterior resolver alguns problemas pendentes. Era namorada do recatado indivíduo desde do dia que aprendeu a sair sozinha pela ruas do Brasil. Era bonita de se ver, usava roupas formais e não sorria muito. Talvez ela pudesse ter uma demasiada tristeza por dentro, algo que a fazia diferente de outras pessoas que tiveram grandes chances e expectativas na vida como ela.
  O homem foi ao encontro com Lúcia. Quando a olhou, sorriu e a abraçou tão forte que aparentemente fez com que a suposta tristeza da mulher tivesse ido embora.
  Pelo caminho de volta para casa, Lúcia ganhou flores tiradas de várias casas da vizinhança, pelo homem que não saberia mais onde esconder o seu própio sorriso. Ao chegar em casa, ela foi pedida em casamento e sem pensar respondeu que sim.
  Casaram, tiveram filhos, compraram casas, viajaram, fizeram amor, dançaram, ouviram músicas, choraram, escreveram cartas, enviaram cartas, e outras coisas de casais normais.
  Ao final da vida de Lúcia, o principal motivo de sua aparentável tristeza, escondida por falsos sorrisos foi revelada: Ela tinha medo de não ser feliz. Depois de olhar as figuras de rostos felizes em seus álbuns de fotos, a mulher deu um longo e sincero sorriso e isso era tudo que ela precisava enxergar. Sua posição e estória no meio de tantas pessoas, no meio do nada, no meio do mundo.

sábado, 9 de maio de 2015

O indelicado

  Os grandes tropeços de uma noite regada por um vazio. Vazios que poderiam ser chamados de solidão.
  Um individualista, em um quarto escuro sem música e cheiro de terra molhada sem chuva. Eu queria ser a vítima, queria sofrer, queria imaginar você raciocinando meus sofrimentos e tentando enxugar as lágrimas que escorriam pelas suas bochechas e logo ia de encontro ao solo.
  O que mais me pertuba e conforta é saber que você estivesse pensando em mim no momento em que eu quisesse esquecer você. Os bilhetes rasgados e queimados num ato tão fútil e rápido diferentemente do tempo em que passamos nos escrevendo com letras felizes um ao outro, em um gesto de amor, de precisão e de ódio amado.
  Aquela noite tinha que ser mais uma, somente mais uma com mágoas e algumas felicidades mas tornou-se indiferente quando surgiu aquele vazio. Eu apreciava os riscos e sempre parava nos abismos das madrugadas, foram inúmeros copos com bebidas que me faziam rir e chorar em frações de segundos. Eu brindava com mesas, paredes e cadeiras que poderiam ser pessoas felizes em grandes festas, porém eles eram somente objetos sem expressões. Eles me ouviam mas não davam opiniões, eu estava sempre certo.
  Todos podem contar de seus amores e conhecimentos pelas noites e madrugadas. Continuo individualista, entre bebidas e atuações, sou a eterna vítima de minha própia mente.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Andando pelo meio-fio numa quarta-feira

  Alguns dias atrás, talvez semanas, caminhei pelas avenidas, atravessei ruas e apreciei os belos seres que sorriam, meio amendrontados com o próximo caminho onde os seus pés pareciam ter passado algum dia. Para esses pés, nada parece novidade, frescor, algo não visto.
Pessoas por todos os lados, de todas as cores e formatos, choram e sorriam, choram e com sorriso tornam a chorar... Algumas em grupo, outras procurando um grupo. Eu me sentia capaz de atravessar paredes, pois parecia um ninguém, um alguém que ainda não teve a capacidade de nascer, mas que tinha o incrível poder de ter a melhor observação,  capacidade de enxergar, reconhecer pessoas e gravar nomes, idades e vozes. Colecionar estórias.
  Aqueles mesmos ambientes com seres humanos e almas, conhecidas como fantasmas, tudo completamente diferente e desconhecido. As casas fechadas e abertas, as flores mortas e vivas, aqueles entulhos no chão, rolando entre seus pés sem você olhar. Os entulhos que puderam ser algo de grande significado por algumas datas ou anos, hoje são só... Entulhos.
  Aquelas bolsas com memórias sem cérebros, carregadas nos seus ombros, braços e mãos calejadas ou delicadas podem conhecer melhor a sua vida que você. Sim, você que atravessa horizontes e verticais de qualquer jardim, rua, país e que desconhece o fato de que seus objetos sabem mais de sua vida que você. Não os pergunte. Não terás respostas, mas sim, reflexões.
  Entre aqueles ares que nos cercam, algum mistério misturado com felicidade que toda juventude nos traz, com uma certa conformidade de que tudo será eterno até o fim de duração .

quarta-feira, 18 de março de 2015

Verão de 1990

  Joana... Eu não lhe conhecia até você passar. Cabelos e vestido, nariz empinado, rapidez com decisões.  Disposta a fazer bater mais forte os corações passageiros pelas ruas e avenidas por onde sua imagem limpa percorre.
  Suas pernas ficavam tortas, junto de um tecido com tons leves de marrom, suas pernas balançavam junto do vestido e eles se entendiam entre si. Tu andavas esquisito.
  Um dia você cruzava uma avenida em direção a uma casa verde. Eu seguia seus passos como um psicopata apreciando sua vítima, ou como somente um alucinado pelo seu carisma interior, junto de uma certa ignorância pelo olhar de seus olhos, uma falta de viver, vivendo.
  Na manhã de 1991, lhe vi mascando um chiclete cor de céu. O mundo estava acabando em seu redor, ao meu redor. Talvez eu já tenha sido atropelado, roubado, sacrificado. Nada mais era apreciável nas ruas, tu vivias para me assolar, desconhecendo esses fatos.
  Preciso de um antídoto, você começava a me fazer mal. Necessitava encentar uma nova vida, abrir os olhos para o mundo, enxergar as cores e as minhas sombras. Eu sabia seu nome e não conseguia esquecer. Menina das pernas estranhas, encantamento insistente, uma certa crueldade. E você continua desconhecer minhas admirações por você.
  Pensei em lhe dar flores ou joga-las em sua cabeça quando estivesse passando. Esqueça. Tenho tendências a coisas clichês.
  Joana... menina tão amável, tão doce, que seria um pecado não olha-la com algum suposto interesse, pois os sintomas que ela causava em mim eram tão vivos e marcantes... Alucinógenos.
  Pequenas estrelas saiam de seu corpo. Espere. Não ria, por favor. Eu vejo detalhes, eu vejo razões para relatar momentos como esses.
  Te peço para que me note. Estarei andando na rua pela manhã, sorrindo, talvez assoviando.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Os capítulos da inexistência

  Os espaços vazios. Ah, aqueles espaços vazios. Nunca vi uma alma neles. Passei noites observando e realmente não tinha nada. Parecia possuir forças para viver em Marte, Mercúrio ou qualquer um desses planetas. O tempo parecia não passar. O tempo não parecia tempo.
  Não tinha cabeças pensantes, não tinha ar. Não tinha alegria que a tirasse dali. Tudo sempre monótono.
  Sentava ali às sete da manhã e assim permanecia, até o céu ficar meio arroxeado, brilhante pelas estrelas que pareciam flutuar. Seu olhar não tinha identidade, sua vida era quase descartável ou nem isso.
  Não tinha amigos nem pessoas, somente possuia uma cama no meio de uma sala, pessoas normais falariam que era um quarto. E ela sabia que era? Notava-se sutilmente que ela desconhecia essa informação.
  Não sentia o sol, não sentia a chuva, não percebia os cheiros. Muito menos sabia que era outono de 1999.
  Numa passagem de manhã para tarde, uma folha da árvore do quintal de seu vizinho entra pelas entranhas de sua janela. Ela decide abri-la e sua vida muda para sempre.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Minha querida e odiada psicodrama

  Era julho. Eu não tinha expectativas de ver um pôr-do-sol com cores bem definidas em um fim de tarde, numa praia vazia, sem pássaros e pessoas sorrindo, bronzeadas, felizes por qualquer eventualidade, como se a permanência delas naquele espaço entre sol, mar e areia, gerasse uma grande euforia dentro de cada um.
  Eu me via sozinha e sem a presença de sentimentos. Se não tivesse oxigênio naquele lugar, talvez eu iria ficar do mesmo jeito que estava por mais uns trinta minutos...
  Aquela garotinha inexperiente estava de frente aos seus conflitos, antes dos trinta anos. Continuava tão longe e tão perto das verdades e de repente, tudo se tornou como as areias onde eu pisava constantemente durante minha caminhada, com lágrimas e sinais de sorrisos.
  Tinha sido uma manhã nublada, pela tarde o sol se abriu, ganhando mais forças depois das três e meia. Era a certeza de que teria estrelas para olhar essa noite.
  Com mais desilusões que amores, com mais perdas do que vitórias, com mais rotinas iguais do que diferentes, esse dia poderia ser especial, mas você o estragou, destruindo meus sonhos que estavam armazenados em forma de pensamentos com positividade, aqueles que usamos para melhorar nosso ego em momentos delicados, quando não acreditamos em nós mesmos.
  Refletindo melhor, você não estragou meu dia. Eu mergulhei profundo demais e deixei a sua imagem em minha mente, me levando para algum esconderijo longínquo, onde eu estaria com meu melhor vestido em um ambiente alegre, porém vivendo tristezas, remoendo fatos inexistentes sobre eu mesma.
  Precisava fugir, olhar as estrelas em outro lugar. Queria as pessoas, os pássaros. Sim, eu mereço.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O que se passa por trás das portas trancadas?

  Os objetos são trocados de lugar mil vezes até o final de nossas vidas... A humanidade caminha em direção a qualquer lugar levando coisas do passado, como aquelas fotos amareladas dos porta-retratos enferrujados.
  Tanto tempo, o tempo todo, sem desespero, somente reflexão.
  Desenvolvemos alguma espécie de ansiedade sem ter eventos marcados, ansiedade por pensamentos que são criados enquanto estamos sentados diante uma janela ou uma paisagem sem cores.
  É tão complicado se sentir uma pessoa como essas que andam nas ruas do mundo todos os dias.
  Evito olhar em espelhos mas quando me deparo com estes, me causa um desespero confortável, uma verdade triste, mas alegre. Ninguém me compreende. Respiro.
  Enquanto penso, já é o dia que seria amanhã, mas eu estava pensando no dia anterior a esse que estou refletindo.