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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

As colheres das xícaras

  E a colher da xícara parecia quase cair todos os dias. Isso me dava agonia. Eu passava as manhãs a observar isso na minha mesa. Pareciam colocar a colher na pontinha, só de propósito, como uma espécie de entretenimento infeliz.
  Lila, minha irmã, passava com seu vestido vermelho e brilhante que queimava os olhos de qualquer ser com sinais vitais perfeitamente ativados; Joaquim, amigo de Lila, parecia estar apaixonado por ela. Não sei como aguentava olhar tanto para ela, porque consequentemente, quando ele a olhava, seus olhos iam de encontro com o vestido sangue misturado com purpurinas.
  Algumas vezes eu ensaiava sair de minha cadeira e segurar a tal colher que estava prestes a cair, mas eu sabia que ela nunca cairia e minha pernas também sabiam corretamente o que eu estava pensando e não esboçavam reação.
  E todos os dias do ano se passaram, Lila com seus vestidos-fantasia, Joaquim abobalhado e admirando esses infinitos arco-íris de minha irmã, e eu sentado olhando a colher que nunca caia da xícara. Minha mãe sempre com sua barriga encostada na pia lavando tantas louças que pela quantidade parecia ter ali todas as louças do mundo. Meu pai com seu pequeno chapeu preto em sua pequena cabeça continuava a ler o jornal por tantas e tantas horas que parecia ter ali a mesma notícia todos os dias. E eu ali sentado, feito um alienígena perdido na Terra dos humanos, arriscando falar a lingua desse novo e diferente mundo, sem saber.
  No primeiro dia do outro ano, as coisas ficaram diferentes. Muito diferentes. Joaquim começou a usar ternos coloridos e Lila, roupas pretas, pois estava de luto, nosso digníssimo pai tinha levado um tiro e morrido no dia anterior; Minha mãe fugiu para o interior com seu papagaio, com medo de represálias; A colher da xícara caiu e antes de que ela encostasse no chão, eu a peguei; Lila e Joaquim romperam seu pseudo romance sem ter se quer começado, Lila alegou ter alergia a fortes romantismos;
  E eu comecei a ter o difícil pensamento de que quanto mais nós achamos que a rotina nunca vai mudar, ela acaba mudando. E mudando tão bruscamente...

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